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Currais Novos, 28 de novembro de 2020


Sou curraisnovense, passei toda a infância e adolescência aqui no meu sertão. Morei 18 anos fora, e a pouco mais de 2 anos estou de volta, vivenciando a cidade, conhecendo pessoas, me religando à cultura local e fortificando os laços com essa terra que aprendo todo dia a admirar mais um pouco.


Essa semana, fazer parte da equipe do projeto Caravana Rec foi como um presente. Trabalhar com pessoas tão capacitadas e que tanto admiro, aprender, sentir na prática a ideia de expansão do conhecimento e valorização da arte acontecendo, foi muito importante. Mas além da prática, questões afetivas e subjetivas, também permearam esses dias, e tenho certeza que não só para mim.


Durante o curso, ao serem provocados pelos professores Carito Cavalcanti e Fernando Suassuna, sobre a temática do curta que seria produzido, através dos conhecimentos adquiridos nas aulas, as alunas e alunos trouxeram questões muito pertinentes para esse momento em que parece se buscar uma nova consciência sobre as cidades. Falar sobre prédios históricos e chamar a atenção para sua preservação como valor cultural, histórico e arquitetônico povoou as cabeças de ideias e memórias. Logo, surgiram falas carregadas de imagens, curiosidades, preocupações, e com elas também, a vontade de registrar esses sentimentos e inquietudes. E comigo não foi diferente.


Fiquei pensando sobre os lugares que frequentava na infância, e os que me chamavam a atenção por parecerem (e serem) para mim inacessíveis. Como é o caso da casa do Desembargador Thomaz Salustino, situada em frente à praça que leva também o seu nome. Essa casa, que ainda conserva sua fachada original, carrega mais que a história da família Salustino, configura-se na verdade como um símbolo identitário dos que aqui vivem ou viveram. Neste momento, a casa em questão está à venda, e essa informação impulsionou para que essa fosse a temática do filme.


Ouvi os depoimentos de alunos e convidados, aprendi mais sobre minha cidade, percebi relações diferentes que as minhas com os espaços, vi nos olhos de algumas pessoas o brilho ao falar dessa terra, agregando amor e pertencimento. Enquanto isso, buscava em mim qual desses lugares despertava mais fortemente emoções e lembranças, e indubitavelmente meu coração se voltou para poucos metros do Solar das Artes, na mesma rua; Coronel José Bezerra, o antigo cinema Cinespacial, que nos anos 90 fechou a suas portas, tornando-se mais um cinema de interior que foi transformado em igreja evangélica. A cidade que já teve 7 cinemas, hoje não tem nenhum, deixando tantos amantes da sétima arte órfãos da grande tela, e contando apenas com a lembrança dos que tiveram oportunidade de vivenciar esses tempos.


Tudo foi tornando-se muito simbólico sobre esse olhar para o ex Cinespacial. Exatamente na semana que o antigo cinema/igreja universal, se tornou Magazine Luiza, curraisnovenses aprendiam sobre áudio-visual, discutiam sobre a valorização dos prédios históricos, e imaginavam possibilidades de contribuir com a arte e a cultura local.


Um projeto como o Caravana Rec não trás somente conhecimentos para aqueles que têm a oportunidade de participarem, mas também, planta uma semente de desejo de realizar, produzir, alimenta sonhos, releva novas perspectivas, cria possibilidades de voos e isso é vida para a qualquer cidade.


Desejo sucesso a esse projeto tão necessário e desejo que os desdobramentos desse encontro ganhem força, sob forma de arte, na vida de cada pessoa nele envolvido.


Diário estradeiro / Pg 6 por Adélia Danielli

Fotos: @caruru.prod

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